Sábado, 11 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

Mara Gama

18/05/2010 na edição 590

‘Não era segredo que o empresário Guilherme Leal, presidente do conselho da Natura, empresa brasileira de cosméticos que tem tradição e visibilidade em seus projetos de sustentabilidade, tinha grandes chances de ser indicado candidato a vice na chapa de Marina Silva, pelo PV.

Ao ler a manchete do UOL a tarde deste domingo, 16, por volta das 14h ‘Empresário Guilherme Leal é vice de Marina’, cliquei esperando para saber mais sobre Leal, sujeito do título.

Me decepcionei.

Na reportagem ‘Marina Silva lança pré-candidatura à Presidência e confirma Guilherme Leal de vice’ encontrei algumas informações: ‘Empenhado na causa verde, Guilherme Leal, 60, foi levado ao PV pela senadora no ano passado. (…) Após o anúncio, o empresário afirmou que sente profunda emoção em aceitar concorrer à vice-presidência. ‘Não podemos deixar de lutar pelo sonho de construir um Brasil mais justo, mais solidário, mais fraterno, mais feliz’, completou.

No acompanhamento feito pela Folha do lançamento da candidatura de Marina, mais algumas linhas: ‘Leal é um dos fundadores da Natura e 601º colocado na lista de bilionários da ‘Forbes’ em 2009. Tem fortuna estimada em R$ 1,2 bilhão.’

O relato termina com a conclusão: ‘A grande notícia politica do dia é que ‘o super-empresário Guilherme Leal será o vice da chapa verde à Presidência’.

Pela formulação do título da home page do UOL, parece que a percepção foi a mesma. Mas não houve empenho para produzir e publicar um perfil do candidato a vice

O caso não é isolado. Também não estão disponíveis os perfis dos demais candidatos a presidente e nem a vice no site de Eleições do UOL.

No dia 13 de abril , alertei para a falta de biografias atualizadas no UOL. Nada parece ter mudado. A biografia de José Serra, que citei na ocasião, permanece inalterada. O tempo está passando.

***

Virada cultural (14/5/10)

Melhorou o tratamento dado pelo UOL à programação da Virada Cultural em São Paulo. Um mapa mais legível e com janelas inteligentes foi usado. Ao clicar no local, a janela apresenta o destaque principal e dá link para a programação completa daquele lugar. É melhor que o usado no ano passado no site especial.

Mas as listas de atrações continuam com problemas. Uma delas é uma relação enorme de todas as atrações, em ordem alfabética e paginada por letra.

No detalhamento organizado por local, as atrações não aparecem em ordem cronológica, como é o caso da programação do cine Don José.

No detalhamento das atrações da Praça Roosevelt, a situação piora. São quatro pontos de apresentação/acontecimentos no mesmo local: o estacionamento, a praça propriamente dita, um local denominado pentagonal e o vão da praça. A lista agrupa os acontecimentos por local, mas em cada local não há ordem cronológica.

Bobagens que irritam leitores

O leitor Marcos se queixa dos vídeos com animais que frequentemente são destacados na home page. ‘Não é a primeira vez que encontro vídeos que denotam crueldade e maus tratos nas páginas do UOL. Sei que deve ser muito difícil controlar o conteúdo postado por usuários, porém creio que não deve ser difícil controlar os vídeos que aparecem em destaque na página principal. Sou um amante dos animais e sobretudo da vida. Participo de ONGs protetoras dos animais e luto por um tratamento mais ético entre humanos e animais, e sempre que me deparo com um vídeo que pode instigar algo cruel eu fico indignado, pois acredito que muitas crianças podem se influenciar.’

O vídeo em questão mostra um cachorro que tem o focinho fechado por uma pessoa. Dá a impressão de que o cachorro está sendo ameaçado com um objeto para que tente se esquivar, sem conseguir. Dura pouco tempo. Não tem qualidade nenhuma. Não vejo justificativa para que receba chamada na home page de um portal como o UOL.

Outra bobagem criticada no mesmo dia foi a notícia-release: ‘Ex BBB divulga seu novo visual’.

‘Frequento diariamente as páginas do UOL. Aprecio alguns artigos. Mas outros são totalmente sem valor cultural, econômico, político, educacional ou mesmo artístico, como esse de hoje: Ex BBB divulga seu novo visual. É duro ver essas bobagens nesse tão importante meio de comunicação, o UOL. Selecionem melhor seus artigos, por favor’, escreveu Edson.

A Redação foi alertada da crítica e defendeu a escolha, alegando que a edição da página tem de ser variada. Não é o caso. Material sem qualidade não deve fazer parte da mistura.

Mais sobre ombudsmans no mundo

Os ombudsmans de imprensa trabalham geralmente de forma independente, do ponto de vista hierárquico, e quase sempre isolados fisicamente das equipes editoriais. Além disso, não há muitos no mundo – são menos de cem os filiados à ONO (Organization of News Ombudsmen), única entidade internacional que reúne os profissionais da área.

Talvez pela raridade e pelas especificidades da função, nos encontros da associação – como este que está acontecendo em Oxford, Inglaterra – há grande interesse em trocar experiências e saber quais são as diferenças e semelhanças em cada meio, quais são as rotinas, como são tratados os interesses dos leitores, telespectadores, ouvintes ou internautas, qual a quantidade de mensagens recebidas e tratadas por dia, como os jornalistas de cada veículo lidam com as discussões e correções, como são resolvidos os problemas mais graves. Já há alguns anos, as transformações que todo o sistema de imprensa vem sofrendo na era digital são também tema fundamental desta pauta.

Para atualizar a radiografia da função no mundo, a associação tem feito, a cada encontro, uma pesquisa sobre os principais assuntos relevantes nos diferentes meios. Como sou a única ombudsman de internet, optei por participar das discussões no grupo dos colegas de Rádios e TVs. Jornais ficam em outro grupo.

Hoje, sexta, discutimos alguns temas habituais e os que foram considerados mais desafiadores ou relevantes nos últimos tempos.

Entre os temas que estão sempre em pauta, os motivos de maior número de reclamações do público: confiabilidade, parcialidade, preconceito, violência, mau gosto.

Também motivo de preocupação dos ombudsmans: com a crise econômica, novos e mais modelos de publicidade estão sendo usados, alguns dos quais em formatos que mimetizam conteúdos editoriais, como os advertorials.

Entre os mais desafiadores atualmente: aumento da quantidade de erros, qual seria a melhor política de correção, como tratar o conteúdo produzido pelo público e como lidar com pedidos de apagamento de arquivos.

No grupo das TVs e Rádios, só a NPR, o sistema nacional de Rádio dos Estados Unidos, usa modelo semelhante ao do UOL, com uma página que funciona como central de erratas, listando todas as correções feitas no conteúdo. Além disso, são corrigidas as informações dos programas de rádio nas edições subsequentes, no ar.

Não há política escrita em nenhum dos veículos participantes do encontro sobre arquivamento e apagamento de arquivos. Em princípio nada de apaga, pois tudo é registro histórico. Alguns veículos analisam caso a caso e tendem a seguir apenas as instruções judiciais. Um site ligado a um sistema de Rádio e TV europeu armazena os arquivos de conteúdos incluídos pelo público – como fóruns, grupos de discussão – por apenas três meses, porque considera que estas comunicações têm natureza diversa da dos materiais produzidos pela equipe editorial.

***

Encontro dos ombudsman de imprensa (13/5/10)

Hoje foi o primeiro dia de painéis e apresentações da reunião anual da Organização dos Ombudsmans de Imprensa (ONO – Organization of News Ombudsmen), que está sendo realizada em Oxford, Inglaterra.

O encontro reúne nesta edição cerca de 40 profissionais, na grande maioria jornalistas, que desempenham funções de ombudsman e representantes de leitores em jornais, rádios, TVs e sites; professores de deontologia e ética jornalística; e participantes de conselhos de imprensa ligados a associações governamentais, profissionais ou independentes. São profissionais de mais de 20 países, entre eles França, Canadá, Inglaterra, Holanda, Suécia, Irlanda, Estados Unidos, Dinamarca, Austrália, Bélgica, Colômbia, Argentina e Brasil. Três ombudsmans brasileiros participam do encontro: Ernesto Rodrigues, da TV Cultura, Suzana Singer, da Folha de S. Paulo, e eu.

O seminário prossegue na sexta, dia 14. Durante o período, estou analisando as mensagens dos leitores por aqui e encaminhando os assuntos internamente com a Redação.

Nos painéis de hoje, jornalismo cooperativo, mídia social e blogs estiveram em pauta.

Na apresentação da ombudsman da SBS, da Austrália, Sally Begbie, foram apresentados os atributos/funções que o ombudsman da era digital devem ter: entender os princípios tradicionais do jornalismo, avaliar e explicar aos leitores como estes princípios estão sendo aplicados nos meios atuais, entender as capacidades e os limites do processo de produção da indústria da notícia e ser capaz de analisar texto, vídeo, áudio e demais tipos de produção de conteúdo veiculada online.

Para o jornalista Charlie Beckett, diretor do London School of Economics, o ombudsman que trabalha com conteúdos produzidos em rede deve ser uma espécie de educador, que dissemina as técnicas e regras do jornalismo: ‘um facilitador em vez de um juiz, um moderador em vez de um regulador’.

TAO do jornalismo

Uma experiência muito interessante foi apresentada no encontro anual dos ombudsmans de imprensa aqui em Oxford por John Harner: o Washington Press Council.

O conselho funciona desde 1998 de forma totalmente independente – não é ligado ao Estado ou a qualquer outra representação ou empresa jornalística. Define-se como um fórum independente para a ética na mídia. A missão do conselho é ajudar a manter a confiança pública na mídia através da promoção da precisão, equilíbrio e credibilidade e criação de um espaço de debate no qual o público e os meios de comunicação possam conjuntamente avaliar se estão sendo seguidos os fundamentos da ética jornalística.

O conselho criou um selo de filiação a três princípios – transparência, confiabilidade e abertura –, batizado de TAO do jornalismo, e incentiva blogs e publicações interessadas em fazer parte de sua rede a adotar o selo, como manifesto de intenções e compromisso.

É uma maneira de promover a autorregulamentação e expandir para a blogosfera as boas práticas e ideias fundamentais da ética jornalística.

Ao adotar o selo, o jornalista blogueiro se compromete, entre outras coisas, a deixar claro se tem patrocínio e como se sustenta a publicação, se a publicação é filiada a algum partido político, se está a serviço de algum lobby ou iniciativa de alterar regulamentação ou legislação em vigor, que vai corrigir e esclarecer erros que sejam apontados e confirmados em seu site e dar oportunidade de manifestação a versões diferentes das publicadas no site/blog. Se você se interessa pelo assunto, veja o site do conselho e saiba mais sobre o TAO do jornalismo.’

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