Quinta-feira, 09 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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ENTRE ASPAS >

O Estado de S. Paulo

29/06/2010 na edição 596

TELEVISÃO
Patrícia Villalba

‘É só fazer a barba e entrar em cena’

‘Por coincidência ou caprichosa conspiração cósmica, não foi o autor Silvio de Abreu, mas a professora Brígida que pôs Daniel de Oliveira na rota do Agnello, o italiano mais encantador de Passione. É que quatro meses antes de o ator receber o convite para o papel, a professora, que já lhe dava aulas particulares de inglês, insistiu para que ele passasse a estudar também italiano. ‘Quatro meses depois, me chamaram para fazer o Agnello. Pensei: ‘estou no caminho certo’, conta Daniel.

No começo da novela, Agnello, o filho mais rebelde do camponês Totó (Tony Ramos) parecia não ter lá um bom caráter. Mas logo se mostrou ingênuo e, agora, perdido em paixão por Stela (Maitê Proença), virou de vez um doce de coco. ‘É um personagem recorrente nos filmes italianos, principalmente em Os Boas Vidas (I Vitelloni), do Fellini’, explica Silvio de Abreu, que logo que criou o personagem pensou em vesti-lo com o reconhecido carisma de Daniel.

Um dos atores mais elogiados de sua geração, pela capacidade de se transformar sem pudores, Daniel concedeu a seguinte entrevista ao Estado, em que fez questão de gastar um pouco do seu italiano, ainda em êxtase pelos 40 dias que passou na Itália, para as gravações da novela.

Primeiro, achei que o Agnello fosse meio mau caráter. Mas agora, estou achando que ele é meio ingênuo…

É, eu também estou descobrindo quem ele é. Acho que ele é um italiano cheio de sonhos e vontade de sair daquele universo de ‘contadino’ (camponês). É por isso que ele acreditou no Fred (Reynaldo Gianecchini).

Ele se acha malandro, mas é ingênuo.

É que naquele universo ali, na Toscana, ele é malandro. Mas esse mundo está cheio de malandros mais malandros do que a gente.

Você é conhecido por papéis de transformação física e apuro técnico. Como se sente, então, quando vai fazer uma novela e me diz, a essa altura do campeonato, que nem sabe se o personagem é bom ou mau caráter. Não fica aflito?

Não dá aflição, dá curiosidade. Tenho curiosidade não só sobre o Agnello, mas também sobre os outros personagens – também gosto de ver a novela em casa. Mas não fico ansioso, espero as coisas acontecerem.

Muito ator não gosta de se ver na TV. Não tem problema com isso, então?

Assisto, sim, não tenho paranoia, acho que me acostumei. Entendo que há limitações, e não fico me criticando nem me vangloriando. Não fico ali tendo egotrip na frente da TV. O que eu penso é que ali, naquele momento, fiz o meu melhor.

Você ficou três anos sem fazer novela, a última foi Desejo Proibido. Neste período, fez dois filmes e duas minisséries. Volta diferente para as gravações?

Acho que tem um lado muito bom de fazer novela, que é um exercício de rapidez. Mas não estou sentindo ainda a pressão, porque começamos a preparar Passione muito antes. Inconscientemente, comecei a me preparar até antes de receber o convite. A minha professora de inglês, a Brígida, começou a dizer ‘Daniel, vamos estudar italiano também’. Eu não queria, dizia que o inglês estava bom demais. Mas topei fazer 20 minutos e me interessei bastante. Quatro meses depois, recebi o convite para fazer o Agnello Mattoli. Pensei ‘estou no caminho certo’. Agradeci muito à Brígida! E intensifiquei minhas aulas de italiano.

A professora Brígida já viu a novela? Aprovou seu italiano?

Já, ela adora! Ela sabe que temos de misturar as duas línguas. Se falarmos só o português com um certo cantar italiano, fica estranho. Então, estamos misturando, e tem muita coisa em italiano mesmo. Teve gente que não gostou, claro. Mas a gente vai adequando.

As novelas sempre ficam no ‘eco’ e no ‘capisce’, mas em Passione a dose de italiano é bem maior.

Sim, hoje peguei um texto que tinha uma palavra em português e o resto todo em italiano. Mas acho que dá para entender, sim, até porque a gente explica muito bem a cena. Tem gente que fica incomodado com isso sei lá por quê. Mas a maioria das pessoas está gostando. É confortável aquele universo da Itália. A Gemma (Aracy Balabanian) e o Totó são personagens muito carismáticos, e o núcleo italiano tem uma coisa de família que é muito gostoso de ver.

Aonde acha que vai parar o romance do Agnello com a Stela (Maitê Proença)?

Acho que há um sofrimento mútuo, porque ela é casada. E que ele até pensou em se aproveitar dela, mas depois ficou envolvido de verdade. Mas acho que não é um romance que vai terminar bem.

No ano passado, em entrevista para o Caderno 2, você disse que quando vai viver figuras reais no cinema – como Cazuza – busca dentro de você mesmo uma chave que decodifique o personagem. Como faz com o Agnello, que é pura ficção?

É, acho que você tem de buscar uma relação com o personagem, já que usa sua voz, corpo, raciocínio e todos os seus músculos em cena. Dependo muito de mim para viver uma figura que não sou eu, mas que ao mesmo tempo sou eu totalmente – sou eu naquela pele ali. Já o Agnello está próximo de mim: cabelo enrolado, é só fazer a barba e ir pra cena! A única coisa que ele tem de diferente é esse acento italiano, essa língua que quero descobrir. Falei pro Tony (Ramos) que neste ano vou falar muito em italiano com ele!

A professora Brígida tem um aluno exemplar…

Mais ou menos… Eu nunca faço a lição de casa… Mas estou querendo dar um gás. Na Itália, qualquer um que vinha falar em inglês comigo e eu dizia ‘no, no, per favore, parla italiano con me’.’

 

TECNOLOGIA
A.O. Scott, do New York Times

O grande delírio 3D de 2010

‘Hoje, entre o lançamento de Como Treinar Seu Dragão e a chegada do próximo e último Shrek, em duas semanas, vivemos num período que futuros historiadores do cinema poderão chamar de o grande delírio 3D de 2010. Quando nos encontramos dentro de um momento histórico de grande importância, é difícil discernir sua verdadeira natureza. Será uma revolução ou apenas uma mania passageira?

É difícil contestar o atual poder comercial do 3D. Os cinemas aumentaram a diferença de preço entre os ingressos normais e aqueles acompanhados por pares de óculos 3D e isso não afastou o público das telas – parece que a despesa adicional teve um efeito contrário.

Seis meses depois que as especulações que antecederam o lançamento de Avatar chegaram ao ápice, o filme calou os céticos ao arrecadar US$ 750 milhões só nos EUA. O subsequente sucesso de todos os demais filmes lançados em 3D neste ano – Alice no País das Maravilhas, Fúria de Titãs e Como Treinar seu Dragão – estabeleceram o paradigma de uma nova sabedoria convencional que deve se sustentar no mínimo até o primeiro grande fracasso de bilheteria em 3D.

É claro que isso acontecerá em algum momento, mas, quando esse dia chegar, o investimento em novos equipamentos será tão substancial e haverá tamanha gama de filmes em produção neste formato, que dificilmente esse colosso será freado. Um importante dogma dessa sabedoria convencional determina que o 3D atrai aos cinemas multidões que, na ausência desse recurso, teriam preferido ficar em casa.

Pânico

Desde a ascensão da TV, Hollywood tem vivido num estado de pânico diante da possibilidade do surgimento de uma nova invenção que afaste definitivamente as pessoas dos cinemas. Essa ansiedade persistiu mesmo depois que os estúdios aprenderam a transformar essa suposta concorrência num novo fluxo de renda complementar. E mesmo hoje, conforme a tecnologia traz ao lar uma experiência muito semelhante (e, se o cinema de seu bairro for tão ruim quanto o do meu, a experiência em casa é até superior) àquela que o público encontra nos cinemas, o hábito de assistir a filmes na telona se mostra de uma permanência impressionante.

Assim, não resta dúvida de que está a caminho uma generosa rodada de oportunismo econômico, enquanto estúdios se apressam para adaptar filmes 2D – caso de Fúria de Titãs e Alice – ou reformar séries já existentes. 2010 é o ano não apenas do quarto Shrek e de Toy Story 3, mas também de Piranha 3D e novíssimos títulos da série de dança Step Up e dos documentários de gosto duvidoso da série Jackass.

‘Por que odeio o 3D’

Por mais que possamos aguardar o extremo realismo de versões 3D destas séries – no caso de Jackass, prefiro nem imaginar –, parece razoável perguntar o que é acrescentado quando uma terceira dimensão ilusória é introduzida posteriormente. E também se o recurso pode beneficiar todos os tipos de filmes. Num ensaio dissidente publicado na Newsweek – intitulado Por que eu odeio o formato 3D (e você deveria odiá-lo também) – o crítico de cinema Roger Ebert se diz incapaz de ‘imaginar dramas, como Amor Sem Escalas ou Guerra ao Terror, no formato 3D’.

Ele acredita que a maioria dos cineastas pensa o mesmo, e, sinceramente, concordo com ele. Mas, nos velhos tempos, houve críticos que demonstraram o mesmo ceticismo diante do som e, posteriormente, da cor, elementos que eram tidos na época como distrações que prejudicavam as qualidades artísticas do cinema. E suspeito que, em pouco tempo, Ebert e eu conheceremos um filme dramático que desafiará nossos pressupostos.

Entretanto, até que chegue este dia, o público – quero dizer, todos aqueles que frequentam os cinemas – terá que se contentar com uma mistura eclética de inovação, ambição e mão de obra desleixada. Neste aspecto, o 3D não é muito diferente de outros formatos de produção, com a diferença de que, até o momento, suas conquistas genuínas são relativamente limitadas.

Por enquanto, o 3D tem funcionado melhor em filmes de animação do que nos filmes com atores de verdade. Com seus personagens criados a partir da captura de movimentos e paisagens geradas por computador misturados naturalmente a atores reais e cenários concretos, Avatar é a exceção que comprova a regra. Os verdadeiros momentos de tirar o fôlego são aqueles em que as criaturas aladas alçam voo.

O mesmo vale para Como Treinar seu Dragão, animação infantil sobre temas como ser fiel a si mesmo, seguir os próprios sonhos e tolerar os outros, que ganha transcendência com o vertiginoso e emocionante espetáculo dos dragões voadores. Acredito que o incrível sucesso deste filme, que dominou as bilheterias por semanas diante da concorrência de longas de ação e comédias românticas, deve mais ao seu imenso apelo visual do que a qualquer outra característica. Ele proporciona um deleite quase primal, semelhante àquele descoberto pelas gerações anteriores nos épicos em Cinema-scope ou nos efeitos especiais pré-digitais dos primeiros filmes da série Guerra nas Estrelas. Quando assistimos ao filme, quase podemos acreditar que estamos voando.

Voar

Há muito tempo, desde que Asas, de William Wellman, foi premiado na cerimônia do primeiro Oscar, reproduzir a sensação de voar tem sido um sonho do cinema. Os melhores filmes no formato 3D – Up – Altas Aventuras, e também Avatar e Como Treinar seu Dragão – revivem esse sonho e proporcionam a ele uma nova dimensão.

Um dos motivos pelos quais ansiamos por novas formas de voar é o fato de a emoção encontrar uma forma de se desgastar. Os filmes que impressionaram nossos pais, ou até a nós mesmos quando éramos mais jovens, parecem hoje ser desconjuntados ou antiquados, charmosos em vez de arrebatadores. Isso vai acontecer com o 3D, quem sabe mais rápido do que pensamos. Talvez o formato tenha vindo para ficar, e talvez o recurso não seja grande coisa.

(Tradução de Augusto Calil)’

 

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