Segunda-feira, 06 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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O Globo

18/05/2010 na edição 590

FICHA LIMPA

Aline Moura

Nunca mais!

‘A expressão ‘Rouba, mas faz’, ao contrário do que se pensa, não é coisa de Paulo Maluf. Começou com Adhemar de Barros, mentor político de Maluf, que foi interventor de São Paulo de 1938 a 1941, governador entre 1947 e 1951 e 1963 e 1966, e prefeito da capital de 1957 a 1958. Consagrado popularmente, Adhemar era hábil em tirar proveito próprio através de iniciativas públicas. Por exemplo, loteava áreas inóspitas, onde possuía terrenos, e mandava o governo – ele mesmo! – levar água, esgoto, luz elétrica à região. Ficou milionário pelo próprio esforço. Foi nesta época que surgiu a expressão, cunhada por uma população tão carente de iniciativas positivas do governo, e que acabou aceitando e elegendo figuras que roubavam, mas faziam.

Infelizmente, a história não ficou no passado. Com Maluf, o grande Ali Baba da paulicéia, e tantos outros, a expressão ‘Rouba, mas faz’ virou até slogan extra-oficial de campanha. Lembro-me muito bem dos meus 16 anos, primeira eleição em que jovens desta idade iriam às urnas, de um coro de colegas mauricinhos anunciando que iriam votar no Maluf porque ele ‘rouba, mas faz’. E daí?

Consequência trágica

E daí que este pensamento virou patrimônio da política brasileira. Antes de sair de São Paulo, acreditava que entre os paulistas este consenso era mais forte. Pelo impacto das obras que Adhemar, Maluf e tantos outros realizaram e por esta maneira equivocada de fazer política ter ajudado a alçar São Paulo à condição de uma cidade importante. No entanto, hoje, é fácil ver replicada a ideia nas esquinas de qualquer cidade. Vim para o Rio de Janeiro e encontrei aqui, com as devidas exceções, a mesma ladainha e a mesma história triste de políticos que dão com uma mão uma migalha, e tiram com a outra um tostão e tanto.

A consequência trágica disso tudo está nas páginas dos jornais, todos os dias. E o morro só desabou porque se tirou dinheiro de algum lugar para se colocar no bolso de alguém. Ou nas meias. Ou nas cuecas, meu Deus!

O voto consciente

Apesar de pessimista com esta corrupção tão arraigada em nosso dia-a-dia – porque a sensação que tenho é que as pessoas estão aguardando apenas a sua vez de serem corruptas – acredito em um movimento de mudança que faça com que o povo desperte de seu sono letárgico e mude. Não basta ler jornais. É preciso se manifestar a respeito das notícias. Não basta se lamentar. É preciso levantar da cadeira e protestar. Nestes tempos de internet, nem é preciso mais levantar da cadeira. Basta um clique e uma nova mobilização começa. Exemplo do Ficha Limpa, que foi parar na Câmara dos Deputados depois de dois milhões de assinaturas somente via web.

Minha preocupação em relação ao Ficha Limpa, no entanto, é como será que ele vai acabar sendo aprovado. E se a justiça dará conta de fiscalizar, punir e barrar tanta gente. Pior: como punir os políticos que roubam, mas não chegam a ser condenados, sequer denunciados? Acredito que o verdadeiro Ficha Limpa seja o voto consciente. Este, sim, pode transformar o ‘Rouba, mas faz’ em ‘Nunca mais’.’

 

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