Segunda-feira, 06 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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VOZ DOS OUVIDORES >

Paulo Rogério

18/05/2010 na edição 590

‘‘Nenhum meio de comunicação ou jornalista deve sofrer sanção por difundir a verdade, criticar ou fazer denúncias contra o poder público’. (Princípio 10, Declaração de Chapultepec *)

O verbete ‘Jornalismo crítico’ do Guia de Redação e Estilo (página 298) define: ‘Mesmo sem opinar, é possível noticiar de forma crítica, comparando fatos, estabelecendo analogias, identificando atitudes contraditórias e veiculando diferentes versões sobre o mesmo acontecimento’. Na edição de quarta-feira (12), a editoria Política aplicou com sucesso esse princípio, analisando o anúncio da Prefeitura de Fortaleza de uma série de projetos para o Centro, comparando-o com outras obras prometidas e confrontando os investimentos com o que foi realizado. Um texto que questionou o discurso com a prática.

A matéria ‘Luizianne na cidade das maravilhas’ usou como ilustração uma fotomontagem da prefeita no papel da personagem Alice, do livro Alice no País das Maravilhas do escritor Lewis Carrol, recentemente adaptado para o cinema. A meu ver, a matéria cumpriu bem o papel do jornalismo de cobrar e confrontar os fatos. Os leitores também elogiaram o texto nos comentários do O POVO Online. Pena que nem sempre seja assim!

Ação/reação

‘Tínhamos noção, desde o início, que havia a possibilidade de más interpretações deturparem o sentido da mensagem. Apenas não achamos que isso deva paralisar o nosso processo criativo’, assegurou o editor-executivo de Conjuntura, Guálter George. Segundo ele, o humor estará presente na cobertura das Eleições 2010, anunciada no domingo. Mas não como a marca principal. ‘Ela vai propor uma grande discussão sobre o Ceará, do presente e do futuro’ garantiu.

A crítica nem sempre é bem recebida pelo criticado. Inclusive entre os próprios jornalistas. No dia seguinte, o jornal publicou ‘Ponto de Vista’ da assessoria de comunicação da prefeita criticando forma ‘jocosa’ da matéria. Coincidência ou não, no mesmo dia, O POVO não conseguiu falar com a prefeita Luizianne Lins para confirmar resultado de reunião que tratou da instalação do estaleiro em Fortaleza. Outros veículos foram mais felizes. Segundo o blog do Eliomar (http://blog.opovo.com.br/blogdoeliomar) a prefeita teria afirmado ontem, durante visita às obras do estádio Presidente Vargas, estar ‘em greve com o jornal O POVO’. E os leitores/eleitores/cidadãos de Fortaleza? Como ficam?

Números desprezados

O que diferencia uma cobertura de outra? O olhar do repórter, a sensibilidade, a apuração, o ‘faro’ jornalístico. Um exemplo clássico aconteceu na última terça-feira (11). Os três jornais da cidade – O POVO, Diário do Nordeste e O Estado – acompanharam a presença, em Fortaleza, da representante do Comitê dos Direitos da Criança da Organização das Nações Unidas, a peruana Suzana Villaran. Ela visitou o Centro Educacional São Miguel, unidade que abriga adolescentes em conflito com a lei, e participou de debate sobre direitos da criança e adolescentes.

O POVO e O Estado focaram a matéria na falta do envio de relatórios, nas instalações precárias do São Miguel e de uma ‘inversão de prioridades’. O POVO ainda citou a ameaça de um membro da OAB do pedido de intervenção no Ceará. O DN aprofundou o debate sobre a necessidade da mudança na filosofia de trabalho, que hoje prevê mais a punição que a reeducação.

Em todas as matérias um dado revelado pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente (Cedeca) passou esquecido: as queixas de violência nas unidades. São ameaças, castigos físicos, humilhações e relatos de abusos sexuais praticados por agentes (educadores?). Os três jornais ficaram mudos com as denúncias. Ninguém questionou o Estado se estava havendo investigação, se alguém foi punido. Ou simplesmente ouviu os garotos. Só registrou-se o fato e pronto. Faltou a indignação que o leitor deseja.

Na matéria ou no quadro?

Uma das primeiras críticas que recebi dos leitores ao assumir o cargo, em janeiro, era com os erros no quadro Indicadores Econômicos, o ‘calo’ da editoria de Economia. As incorreções foram apontadas e corrigidas, mas a sequência de falhas tem irritado os leitores. ‘Parece ser ‘escrita’ e ‘conferida’ por quem está totalmente por fora dos assuntos de Economia – deve ser o assistente do estagiário’, desabafou a leitora Maria del Carmem Fontenelle. Ela aponta, por exemplo, contradições nos índices da bolsa entre as matérias e o referido quadro. No dia 8 de maio, enquanto a página 30 falava da queda na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) de 0,86%, os Indicadores, duas páginas antes, apontavam alta de 1,40%.

Na quinta-feira (13), a cena se repetiu na página 24, com +1,24% na matéria e +1,40% no quadro, com movimento financeiro também distinto. ‘Esse tipo de erro acontece no mínimo duas a três vezes por semana. Ninguém do jornal lê essa coluna?’, questionou. Levei a pergunta para a editora-executiva do Núcleo de Negócios, Neila Fontenele. Ela afirmou que a revisão é feita diariamente pelos editores, mas reconheceu que há muitas falhas no processo de digitação e os leitores têm razão em reclamar. A editora prometeu rever o processo. Diante da pergunta do leitor José Mario – Em quem acreditar? No quadro ou na matéria? – ela foi categórica: ‘Na matéria’.

(*) A Declaração de Chapultepec é uma carta de princípios, elaborada em 1994, que coloca ‘uma imprensa livre como condição fundamental para que as sociedades resolvam os seus conflitos’. O documento foi assinado por chefes de estado, juristas e entidades de vários países da América. O Brasil assumiu o compromisso em agosto de 1996.’

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