Quarta-feira, 27 de Maio de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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VOZ DOS OUVIDORES >

Regina Lima

Por lgarcia em 06/11/2013 na edição 771

A coluna desta semana apresenta algumas observações feitas pela ouvidoria a partir de um levantamento das cerca de 70 matérias publicadas pela Agência Brasil nos últimos 12 meses sobre o monitoramento e controle da emissão de gases de efeito estufa no Brasil. Mais que a relação em escala global entre as emissões e as mudanças climáticas projetadas para as próximas décadas, se não houver ajustes suficientes para mitigar os efeitos danosos, a análise prioriza as emissões em si e os aspectos voltados para os impactos mais imediatos na qualidade de vida da população e as políticas públicas adotadas para fomentar o desenvolvimento sustentável em alguns setores em que a emissão desses gases é mais crítica.

Primeiramente, a quantas andam as emissões brasileiras atualmente? Aqui a principal novidade foi o lançamento em setembro do relatório do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) sobre o perfil das emissões e as mudanças entre 2005 e 2010. A cobertura da ABr destacou as mudanças percentuais significativas nas participações setoriais: enquanto o setor de florestas e usos da terra, ou seja, queimadas e desmatamento, baixou de 57% em 2005 para 22% em 2010, energia e agropecuária aumentaram suas participações em 16 e 15 pontos percentuais, respectivamente [1]. Segundo um pesquisador peruano citado em uma das matérias, agora o Brasil polui “como um país desenvolvido” [2].

Contudo, a apresentação das participações percentuais sem os dados quantitativos utilizados nos cálculos priva o leitor de várias informações importantes, sobretudo quando se leva em conta a grande mudança que houve no total. Nesse período de cinco anos, o Brasil reduziu suas emissões de 2,03 bilhões de toneladas de carbono equivalente para 1,25 bilhão [3]. Em 2005, o Brasil era responsável por 5,2% das emissões globais; em 2010, a cifra tinha diminuído para 2,6% [4]. Ao mesmo tempo, a redução das emissões no setor de florestas e usos da terra, devido em grande parte à redução substancial na taxa anual de desmatamento, foi maior que a redução total. O que significa que, além das suas participações crescerem percentualmente, as emissões dos setores de energia e agropecuária cresceram também em números absolutos. No setor de energia, o aumento das emissões superou o crescimento setorial no período.

Para facilitar a compreensão desse tipo de informações, o uso de recursos gráficos é frequentemente indicado. Faltaram, nas matérias sobre a mudança do perfil de emissões no Brasil, gráficos de barras e de pizza, que teriam permitido a apresentação de mais informações e reforçado os pontos destacados no texto.

Em relação ao setor de energia, a ABr produziu várias matérias sobre os sistemas de transporte coletivo nas principais capitais do país. Embora as emissões veiculares não representem um dos grandes responsáveis no conjunto das emissões, elas preponderam nos lugares onde vivem grandes concentrações da população. Na cidade de São Paulo, por exemplo, quase 50% das emissões estão relacionadas ao sistema de transporte [5]. De acordo com um estudo citado em uma das matérias, “todo ano, cerca de 7 mil pessoas morrem em São Paulo por causa da poluição atmosférica, e ela é essencialmente veicular” [6]. A ABr só publicou duas matérias sobre as inspeções periódicas das emissões veiculares e ambas apontam uma tendência de retrocesso nessa área, em que as medidas estão apenas “engatinhando” no Brasil, segundo o secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente da cidade de São Paulo, Ricardo Teixeira [7].

Apesar dos atrasos na execução das obras que integram a pauta de mobilidade urbana para os grandes eventos que serão realizados no Brasil nos próximos três anos, os resultados dos sistemas já em funcionamento e as expectativas para os que estão em implantação indicam que essa é uma área onde quase todo o mundo se beneficia. As matérias publicadas pela ABr assinalaram os ganhos. Uma simulação realizada pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) concluiu que “o ar na capital paulista seria, em média, 30% mais poluído caso o metrô, que transporta diariamente 4 milhões de passageiros, não existisse” [8]. O estado do Rio de Janeiro “espera reduzir em 1,8 milhão de toneladas as emissões de gases de efeito estufa de 2014 a 2016, apenas com a ampliação e melhoria dos serviços de trens, metrô, barcas e vias exclusivas para ônibus no Grande Rio” [9].

Por outro lado, a cobertura não deixou de abordar alguns aspectos negativos ou questionáveis referentes ao planejamento e à execução das obras de infraestrutura de mobilidade urbana. Em várias matérias que a ABr publicou sobre a atuação dos comitês populares da Copa nas cidades que vão sediar os jogos em 2014, o leitor pôde tomar conhecimento de como as autoridades locais têm administrado, com maior ou menor êxito, a desapropriação dos terrenos e a transferência dos moradores para outros locais.

Para a saúde humana, uma das formas mais perniciosas das emissões é o material particulado (fumaça) oriundo da combustão incompleta dos combustíveis fosseis e da poeira gerada pelas obras de construção civil, entre outras fontes. A cobertura foi fraca nesse aspecto, tratado em apenas quatro matérias, nenhuma delas voltada para o controle da poeira gerada pelas obras de construção civil. Uma das matérias, porém, assinalou a importância da plantação de cinturões verdes arborizados em torno dos aterros sanitários para filtrar o material particulado emitido [10]. Os aterros, que substituem os lixões, também oferecem uma alternativa para a captação e aproveitamento do gás metano gerado pelo lixo. Esse assunto foi abordado em várias matérias, uma das quais apresenta gráficos que ilustram bem as diferenças nas instalações [11].

No setor de energia, que, segundo os dados de 2010, responde por 32% das emissões de gases de efeito estufa no Brasil, os grandes vilões são as usinas geradoras. Trata-se de uma matriz cujo equilíbrio requer cálculos complexos de custos e benefícios em que muitas vezes a melhor opção é a “menos pior”.

Cresce também a conscientização de que as novas hidrelétricas (Belo Monte, Santo Antônio e Jirau, por exemplo) que, por motivos ligados à preservação ambiental, adotaram a engenharia “a fio d'água” em vez de grandes reservatórios, terão uma capacidade de geração mais limitada, devido às variações sazonais na vazão dos rios. A cobertura da ABr tocou nesse ponto em uma matéria publicada em junho, em que a presidenta Dilma Rousseff comentou: “Temos que enfrentar o fato de que, se continuarmos a fazer hidrelétricas a fio d’água … haverá uma tendência inexorável de aumento das térmicas na nossa matriz” [12].  Enfim, essas questões já abordadas e outras que sequer foram citadas merecem atenção em futuras reportagens.

Até a próxima semana!

[1]http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-09-09/participacao-do-setor-de-energia-em-emissoes-de-gas-carbonico-dobra-em-cinco-anos

[2]http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-10-08/brasil-polui-como-pais-desenvolvido-diz-pesquisador-do-ipcc

[3]http://gvces.com.br/arquivos/177/EstimativasClima.pdf   

[4]http://www.cbc.ca/news/world/the-world-s-12-largest-ghg-emitters-1.826464

[5]http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-03-12/sao-paulo-nao-atinge-meta-de-reduzir-emissoes-de-gas-de-efeito-estufa

[6]http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-03-21/ministerio-publico-vai-entrar-na-justica-contra-lei-que-isenta-taxa-de-inspecao-veicular-em-sp

[7]http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-03-12/sao-paulo-nao-atinge-meta-de-reduzir-emissoes-de-gas-de-efeito-estufa

[8]http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-06-07/poluicao-do-ar-em-sao-paulo-seria-30-maior-se-metro-nao-existisse-sugere-estudo

[9]http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-05-02/rio-espera-atingir-em-2016-metade-da-meta-de-reducao-de-gases-de-efeito-estufa-emitidos-por-transport

[10]http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-02-17/pesquisador-alerta-para-problemas-de-saude-causados-por-novo-aterro-sanitario-em-seropedica

[11]http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-09-08/%E2%80%9Crio-de-janeiro-sera-primeiro-estado-eliminar-os-lixoes%E2%80%9D-diz-secretario

[12]http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2013-06-05/dilma-diz-que-reducao-das-emissoes-do-setor-energetico-e-foco-do-governo

[13]http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-11-12/relatorio-critica-falta-de-politica-de-eficiencia-no-setor-eletrico

[14]http://www.xinguvivo.org.br/2011/08/10/hidreletricas-construidas-em-areas-tropicais-emitem-mais-gases-de-efeito-estufa-entrevista-especial-com-philip-fearnside/

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