Terça-feira, 02 de Junho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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VOZ DOS OUVIDORES >

Suzana Singer

01/02/2011 na edição 627

‘Alguma coisa inesperada e importante está acontecendo do outro lado do Atlântico. Lá no norte da África e no Oriente Médio. Envolve realidades distantes, em lugares como Tunísia, Mauritânia, Iêmen e Egito.

Uma mobilização popular surpreendente em Túnis derrubou, há 15 dias, um ditador no poder havia 23 anos e espalhou um frenesi revolucionário nos países vizinhos. Atingiu o Egito, importante aliado do Ocidente na região, despertando ainda mais a atenção do mundo.

É o contexto perfeito para o jornal provar sua importância, constantemente questionada desde o advento das notícias gratuitas on-line. Uma chance de atrair o leitor pouco interessado no noticiário internacional e de atender os milhões de descendentes árabes que vivem no Brasil. Pena que a Folha não tenha aproveitado bem essa oportunidade.

‘O mundo árabe está em ebulição, acompanho os acontecimentos com certa apreensão, no que será que vai dar? Acho a cobertura do jornal suficiente, mas é igual ao que vejo na TV’, diz o administrador João Pereira de Barros Neto, 67. Se está igual à TV, não está bom, sr. João. Espera-se mais do impresso.

O jornal despertou para os protestos na Tunísia em 14 de janeiro, quando o presidente estava por um fio, mas o estopim havia ocorrido quase um mês antes: um jovem ateou fogo ao próprio corpo, porque a banca de frutas que sustentava a sua família foi levada pela polícia.

Havia farto material desde então em agências de notícias e em periódicos estrangeiros, embora o tema não estivesse com destaque no ‘New York Times’ ou na CNN, que demoraram a entrar no assunto.

Uma vez noticiadas as manifestações, o jornal se prendeu em demasia ao factual. Adianta pouco para o leitor brasileiro saber que X milhares de pessoas enfrentaram a polícia no Cairo, com tantas mortes e tantas prisões. Não sabemos o mínimo sobre os países da Liga Árabe que nos permita fazer um retrato mental do que está acontecendo.

Apesar de um certo empenho na cobertura sobre a Tunísia, o caderno Mundo não tinha respondido, até sexta-feira, o básico: quem são os manifestantes, o que querem e quem os apoia? Vários textos batem na tecla dos jovens desempregados e insatisfeitos, mobilizados através das redes sociais, mas isso não é explicação suficiente. Quais são de fato as condições sociais, econômicas e políticas na região? Quais as diferenças entre os países atingidos?

O jornal, em geral ágil nessas horas, não tinha nenhum enviado especial até sábado -apesar de já no dia da queda do ditador da Tunísia ter alertado para ‘possíveis implicações regionais’. Deu azar de o correspondente em Israel estar em férias, mas poderia ter mandado outra pessoa logo. Contou apenas com um relato de um casal de jornalistas que passeava pela Tunísia e, depois, com um repórter em um balneário de luxo na costa do mar Vermelho. O resultado, no caso do Egito, foi bizarro, com a longa descrição de um local perto do centro dos acontecimentos, mas sem notícia.

Mesmo sem ninguém lá, a Folha poderia ter aproveitado melhor análises estrangeiras -o jornal gasta milhares de dólares todo mês pelo direito de reproduzir ‘The Guardian’, ‘The New York Times’ e ‘Financial Times’. Sem contar que hoje dá para acompanhar, da Redação, a TV Al Jazeera, ler blogueiros egípcios com tradução instantânea do Google, acessar versões em inglês de jornais israelenses.

Entre os muitos aspectos que precisam ser explorados, o jornal poderia discutir que posição os diversos grupos muçulmanos estão tomando no Egito e nos demais países conturbados, se há uma conexão pan-nacional nestes eventos. Se uma eventual queda do ditador egípcio Hosni Mubarak coloca em risco imediato os demais aliados de Washington, em especial a Arábia Saudita. Ou que influência isso tudo pode vir a ter no mercado do petróleo, na direitização de Israel e, claro, na vida da população árabe.

Há uma dificuldade na imprensa em explicar acontecimentos que não se encaixam nos padrões ‘normais’, no caso do Oriente Médio: fundamentalistas islâmicos x moderados, pró-Ocidente x anti-Ocidente. A própria posição norte-americana, dúbia em relação aos reclames democráticos das populações árabes, foi mal abordada, talvez porque o jornal não lide bem com nuances.

O clima cada vez mais quente no Egito, país líder da região, torna urgente um ‘upgrade’ nessa cobertura. Se algo mais grave acontecer por lá, haverá consequências para todo o mundo. Sem exceção.’

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