Segunda-feira, 13 de Julho de 2020
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1074
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VOZ DOS OUVIDORES >

Suzana Singer

18/05/2010 na edição 590

Na milenar Oxford (Inglaterra), 31 ombudsmans de 16 países discutiram até ontem os rumos da imprensa na era digital. Em um salão de 1618, igualzinho ao refeitório de Hogwarts, onde Harry Potter graduou-se em bruxaria, os ‘representantes dos leitores’ brindaram pela sobrevivência de um jornalismo independente, preciso e que preste contas ao público.

Como o Lord Voldemort, que a cada livro de Potter parece mais assustador, os problemas que os ombudsmans enfrentam, graças aos avanços tecnológicos, vêm se tornando mais complexos.

O dilema ético que mais provocou debate no encontro anual da Organização de Ombudsmans de Imprensa (ONO) foi o de como lidar com ‘injustiças’ eternizadas em arquivos digitais. Nenhum dos jornais representados em Oxford tem, em seus códigos de conduta, regras de como responder àqueles que exigem que seus nomes sejam retirados da internet.

Um garoto de 12 anos escreveu a um jornal inglês, há poucas semanas, pedindo que seja apagada reportagem que o citava como vítima de bullying -tipo de humilhação entre crianças em escolas. O depoimento, dado seis anos atrás, era da própria mãe do menino, que procurou o jornal na esperança de que as ofensas cessassem.

Graças ao Google, os colegas do garoto, agora em outro colégio, descobriram a história e começaram a atormentá-lo. O pesadelo se repetia. O que fazer? Não há nada de errado com a reportagem, mas, como lembrou um ombudsman, foi uma decisão da mãe dar publicidade ao caso, e jornalistas não costumam ouvir o que a criança tem a dizer.

Na Bélgica, um rapaz cúmplice de assassinato cumpriu sua pena, foi solto, mas não consegue emprego nem namorada porque seu nome aparece ligado ao crime sempre que alguém pesquisa na internet.

A terapeuta designada pelo Estado para acompanhar o rapaz pediu ao único jornal que publicou seu nome que deletasse a notícia, porque estaria inviabilizando a sua ressocialização. O diário trocou o nome dele por iniciais. Mas é correto reescrever o passado de alguém?

Arquivo X

A Folha não mexe nos arquivos digitais, porque os considera cópias do que foi impresso. Se houve um erro no passado, mantém a notícia original, mas coloca uma nota remetendo para uma correção.

Muitas vezes, o que falta é acompanhar um caso. Se foi noticiado que o sr. X foi acusado de corrupção, e depois ele é considerado inocente pela Justiça, o jornal coloca uma nota na notícia original remetendo para a decisão judicial a favor do sr. X.

Na era da internet, é preciso cuidado redobrado com o que se diz na mídia. Quando uma jovem fala hoje sobre como perdeu a virgindade, precisa considerar que, daqui a 20 anos, seu nome estará associado a sexo sempre que alguém ‘der um google’ sobre ela. São ‘vidas marcadas para sempre’, como definiu meu antecessor, Carlos Eduardo Lins da Silva, em 2008.

Não é agradável para o ombudsman dizer ‘sinto muito’, ‘a vida é assim mesmo’ para um menino acossado por colegas, um ex-condenado tentando refazer a vida ou uma pessoa arrependida de suas declarações juvenis. Em apenas três semanas no cargo, tive que recusar, em nome da Folha, dois pedidos de mudanças de arquivos -não descrevi os casos, porque, mesmo com o anonimato garantido, os requerentes não permitiram que suas histórias fossem citadas.

Seria perfeito vestir uma capa da invisibilidade como a de Harry Potter e fugir ao debate, mas não dá. Considero a posição da Folha consistente. Se o jornal ceder em um caso, por mais justo que pareça, haverá outro e mais outro, sempre com bons argumentos. Estaremos reescrevendo a história, o que é um grande risco para todos.’

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